Hiato
(um desabafo que já ficou velho ((a não ser que todos os desabafos sejam, na verdade, atemporais))
Talvez seja tudo obra da minha cabeça. Literalmente da minha cabeça. Talvez haja algo realmente errado dentro dela e talvez seja real a paranóia inconfessável (não tão inconfessável agora) de que a minha incapacidade de ficar em um lugar só é, na verdade, a pura incapacidade de aceitar uma vida que não seja feita de intensidades e grandiosidades.
Trabalhar me deprime. E eu detesto não ter escapatória e precisar conviver com todas as memórias ruins e traumas acumulados até aqui. Odeio a minha intensidade. Odeio o que eu escrevo. E se por um lado eu posso dizer que, nos dias bons, a crueza e o coração aberto com os quais eu trato basicamente todas as minhas relações chegam a ter um certo charme, por outro, nos dias ruins, é difícil ignorar que a origem de ambos são anos e anos de juventude não vivida. Anos perdidos.
Aí, vem o mundo. E todas as possibilidades de movimentação que existem. Porque é fácil demais anestesiar essas dores todas (as recém listadas e as escondidas) quando se acorda em um ônibus no meio da Turquia, assustada porque a paisagem lá fora parece a lua e o sol nascendo é tão laranja, mas tão laranja...
E muito mais fácil esconder tudo isso quando se está descendo uma montanha de bicicleta, sem freio, porque no momento em questão o mundo é feito unicamente de ovelhas e rajadas de vento e nuvens de chuva e estradinhas e morros e uma descida gigante à frente e quem se preocupa em cair e possivelmente morrer quando a existência é tão completa assim?
Mas os hiatos chegam pra todos, seja no hemisfério norte ou no hemisfério sul. E nessas horas a localização geográfica não faz tanta diferença, porque a cabeça segue bem aqui, em cima do pescoço, e a vida humana não é um romance nem uma música nem um filme.
Hiatos grandes e pequenos, de dias, meses, semanas e até anos de desconexão (os meus piores), de pura contemplação miserável sobre como tudo é tão insignificante (a mesma insignificância que tanto me empolga) e sobra toda a culpa e as faltas e as vontades e o tempo perdido e as espontaneidades reprimidas.
E agora há montanhas em todos os lados da casa e quem me garante que amanhã eu vou conseguir levantar da cama pra abrir as janelas? Deve, sim, ser coisa da minha cabeça.
Eu quero o mundo sim, e quero ele pintado de ouro também.




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Isso aí é pura verdade e tu não tá sozinha nessa. Têm dias que os dias comuns são torturantes. E tu acha que vai ser um único dia e no dia seguinte se repete e se repete, mesmo quando tá um dia lindo lá fora e tua vista é muito mais legal que o bairro feio onde morava antes.
Parece até ingratidão pensar assim, mas que culpa a gente tem de quase ficar viciado em dopamina, planejando o próximo destino, o próximo passeio de final de semana.
Texto f*da, tá? 👏🏼👏🏼👏🏼